Tudo pode ser dito? Sim, desde que se tenha em mente que palavras, assim como ideias, têm consequências, que podem ir da responsabilização criminal ao puro e simples repúdio da comunidade. Qualquer um que defenda, por exemplo, que os brancos não devem sentar à mesma mesa que os negros está sujeito às punições que a lei prescreve para o crime de racismo. Nada o impede de escrever isso, assim como nada deve impedi-lo de ser responsabilizado – e hostilizado.
Quem escreve “foram os judeus, e não os romanos, que forçaram a crucificação de Jesus Cristo” se esquece, em primeiro lugar, de que Jesus mesmo era judeu, não cristão -o que deveria ser escandalosamente óbvio. Muito mais grave, está reproduzindo uma ideia que teve consequências trágicas. Ela serviu, em inúmeras ocasiões, como tentativa de “justificar” o injustificável: a “culpa” dos judeus como motivo das perseguições e dos assassinatos que culminaram nos milhões de mortos da Segunda Guerra. Note-se que, hoje, o discurso da Igreja Católica repudia esse tipo de declaração – na nota sobre o escândalo envolvendo o bispo Williamson, por exemplo, o Vaticano diz que as opiniões dele em relação ao Holocausto “são absolutamente inaceitáveis e firmemente rejeitadas pelo Santo Padre, como ele mesmo recordou (…) quando, referindo-se àquele selvagem genocídio, reafirmou sua plena e indiscutível solidariedade com nossos irmãos destinatários da Primeira Aliança”. Não há desculpa, portanto, para quem acha que uma ideia que fundamenta séculos de antissemitismo pode ser usada como “argumento”. Isso não é honesto, nem decente.
Este portal não nega a ninguém o direito de escrever o que quer que seja. Mas reafirma seu direito – igualmente legítimo e fundamental – de repudiar qualquer barbaridade que tenha sido escrita sob seu guarda-chuva, ou mesmo fora dele.