Tudo pode ser dito? Sim, desde que se tenha em mente que palavras, assim como ideias, têm consequências, que podem ir da responsabilização criminal ao puro e simples repúdio da comunidade. Qualquer um que defenda, por exemplo, que os brancos não devem sentar à mesma mesa que os negros está sujeito às punições que a lei prescreve para o crime de racismo. Nada o impede de escrever isso, assim como nada deve impedi-lo de ser responsabilizado – e hostilizado.
Quem escreve “foram os judeus, e não os romanos, que forçaram a crucificação de Jesus Cristo” se esquece, em primeiro lugar, de que Jesus mesmo era judeu, não cristão -o que deveria ser escandalosamente óbvio. Muito mais grave, está reproduzindo uma ideia que teve consequências trágicas. Ela serviu, em inúmeras ocasiões, como tentativa de “justificar” o injustificável: a “culpa” dos judeus como motivo das perseguições e dos assassinatos que culminaram nos milhões de mortos da Segunda Guerra. Note-se que, hoje, o discurso da Igreja Católica repudia esse tipo de declaração – na nota sobre o escândalo envolvendo o bispo Williamson, por exemplo, o Vaticano diz que as opiniões dele em relação ao Holocausto “são absolutamente inaceitáveis e firmemente rejeitadas pelo Santo Padre, como ele mesmo recordou (…) quando, referindo-se àquele selvagem genocídio, reafirmou sua plena e indiscutível solidariedade com nossos irmãos destinatários da Primeira Aliança”. Não há desculpa, portanto, para quem acha que uma ideia que fundamenta séculos de antissemitismo pode ser usada como “argumento”. Isso não é honesto, nem decente.
Este portal não nega a ninguém o direito de escrever o que quer que seja. Mas reafirma seu direito – igualmente legítimo e fundamental – de repudiar qualquer barbaridade que tenha sido escrita sob seu guarda-chuva, ou mesmo fora dele.
Você pode pular direto para o fim e deixar um comentário. Pings estão desativados.

Ih, Raul, essa não colou. Não há o que retrucar ao Paulo. Ele resumiu todo o problema e evidenciou o mato sem cachorro que o AFB e seus seguidores se meteram e se recusam a sair.
And now for something completely different:
http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=837
Caro Raul
Decida-se. Ou você cumpre o que promete ou pare de prometer. E que “seja assim vosso falar: Sim, sim; Não, não; porque o que passa disto é de procedência maligna” (Mateus 5:37)
Conheço o artigo citado. Contudo, a sua simples citação não é suficiente para sugerir que nele há alguma coisa diferente e pertinente a este debate. Quero ler os seus argumentos e provas de que o artigo acrescenta novos elementos para o nosso debate. Portanto, não cite Alexandre Soares como Magister Dixit. Não se discutiu aqui a interdição do método comparativo. Fosse isso, a citação de Alexandre seria bem-vinda. Mostre e prove em quais passagens dos meus comentários eu proponho uma interdição do método comparativo. Não basta sugerir links, negar ou afirmar. É preciso provar.
Eu apresentei argumentos e penso ter evidenciado as contradições factuais e lógicas no post de AFB. Apontei que tais contradições têm origem na premissa “hoje os cristão são efetivamente mais perseguidos do que os judeus.” As demais contradições factuais e lógicas são decorrentes dessa premissa fraca que, como tentei mostrar, os fatos falseiam. Prove-me que estou errado, acrescentando à tese de que “hoje os cristão são efetivamente mais perseguidos do que os judeus” os seus novos argumentos e provas.
Assim procedendo, teremos as bases objetivas para comparar a qualidade do que escrevi com a qualidade do que você escreveu, sem perder de vista que aqui o que é buscado é o conhecimento da verdade sobre os fatos que originaram a pendenga. Seria somente mais um idiota dogmático se excluísse de antemão a possibilidade de errar. Não disputamos egos aqui. Enfim, a verdade não vem porque se compara. A verdade vem à razão pela análise objetiva (lógica) dos argumentos e fatos que a sustentam.
Ou seja, atenha-se ao texto e não a supostas circunstâncias do texto (And now for something completely different), que apenas introduzem ruídos e falsas polêmicas. Bom para a platéia? Talvez. Mas inútil para o conhecimento.
No comentário anterior falei em antilogia como arma retórica. Um dos seus componentes é o diversionismo. Recorro ao Houaiss:
“estratagema usado em assembléias para impedir que se discuta ou se aprove algo (uma lei, uma resolução etc.), ocupando todo o tempo ou desviando-se a atenção dos participantes para assunto diferente do que está sendo tratado.”
Minha formação filosófica é incipiente. Meu campo de estudo é história. Por isso recorro à clareza de pensamento do professor Roberto Romano, mas não ao Magister Dixit de uma auctoritas.
Observe abaixo quem, no texto, pensa sobre abstratos e quem pensa sobre objetos, em prosaica discussão sobre ovos podres e ovos próprios para o consumo. Observe, sobretudo, o estratagema da velhinha para fazer-se de vítima perante os olhos do mundo.
Uma fábula hegeliana
Alguns amigos, colegas, inimigos e indiferentes, cobram-me a utilização do par direita/esquerda, quando se trata de minha crítica aos militantes. Tanto os setores da direita quanto os da esquerda que me conhecem sabem perfeitamente que não tenho o hábito (próprio dos militantes…) de rotular um pensamento ou pessoa segundo aquelas categorias. Antes de tudo, diante de uma enunciação, pergunto —seguindo a tradição jurídica prezada por I. Kant— sobre o fato indicado e sobre o estatuto de verdade do que se disse ou se escreveu.
Não quero saber se o fulano é de direita, esquerda, centro, católico, protestante, homossexual, heterossexual, sei lá o que mais. Quem me dá a honra de ler o que escrevo, sabe que sempre insisto em citar o texto de Hegel intitulado “Quem pensa abstrato?”. Resumindo: certa jovem reclama para uma velhinha que vendia ovos na feira: “os ovos que a senhora me vendeu na semana passada estavam podres”. Vejam bem: ovos são ovos e podem apodrecer nas mãos de qualquer um, honesto ou desonesto. Trata-se de um fato possível e previsível. Uma velhinha honesta, em atos e pensamentos, responderia: “traga-me os ovos podres e os trocarei”. Com isso, ela garantiria que a frase da jovem seria provada ou não.
Mas, prossegue Hegel, não foi este o caminho empreendido pela vendedora macróbia. Furiosa, ela retruca de imediato :”Quem é você para dizer que os ovos vendidos por mim estão podres?”. A réplica tem a marca da má fé. A jovem enunciou algo sobre objetos que poderiam ser verificados. A velha responde apelando para a subjetividade, deslocando o campo da questão. E já no “quem é você”, percebe-se o contra ataque próprio do sofista (seja ele bisonho, seja ele bem treinado na escola de Gorgias).
E prossegue a velhinha: “então não sabemos que seu pai ferido na guerra foi abandonado num asilo? E que sua mãe fugiu com um soldado francês, e também não sabemos como e onde você arruma dinheiro para comprar estes vestidos e fitas bonitos?”. Aí a antilogia chegou ao máximo da má fé. Na impossibilidade de provar sua honesta posição, porque isto implicaria passar pelo estado dos ovos vendidos, a velha prefere, em vez de se defender, atacar. Assim, ficamos sabendo que se os ovos da feirante estão podres, também que as pessoas ligadas à sua adversária são podres (o pai é doente, a mão é covarde e adúltera, a mocinha é puta). O que se prova com tudo isso? Que nos pensamentos e nas ações é preciso ir aos fatos completos, à lógica, ao caráter das pessoas, sem rotulá-las.
Conheço pessoas de direita que respeitam fatos, sabem deduzir elementos lógicos uns dos outros, agem de modo reto e sem subterfúgios como os da velhota. Elas não acusam as idéias contrárias às suas, e seus enunciadores, de podridão (noética ou moral). Buscam pensar sobre os objetos (os ovos) que os seus adversários de esquerda ou de centro (alto ou baixo, pouco importa) lhe pedem que analisem. Nada perdem de suas convicções, por exemplo, quando lêem autores contrários ao que pensam. Aliás, não têm medo de ler aqueles autores. E mostram respeito por autores que pensam de modo diferente do seu, pois são os seus sparrings, os ajudam a fortalecer suas razões. Tais pessoas jamais serão militantes, no sentido boçal e habitual do termo. Elas não juram pelos seus mestres de pensamento, examinam pessoalmente os escritos e as falas de todos os que participam da ordem social. E decidem com base em seu próprio juízo, sem auxílio do papai Hitler e derivados contemporâneos.
Conheço pessoas de esquerda……[seguem exatamente as mesmas palavras do § acima até Hitler e derivados contemporâneos, troquem por favor por Stalin e seus derivados contemporâneos].
Um indício de pessoa de direita e de esquerda honestas e leais a si mesmas e aos outros, é a gentileza, a cortesia, o respeito pelos seres humanos. Quando alguém imagina ter o direito de menosprezar outros humanos, neles colocando apelidos, acusando-os de idiotice ou animalidade, temos a clara nota: trata-se de um militante e, portanto, de péssimo caráter. Olhem para o rosto dos militantes (de direita e de esquerda…): quando “conversam” com alguém que não respeitam (e, por definição, só respeitam que pensa igual a eles, ou não pensa…) deixam os olhos vagando pela sala, pelo teto, pela janela, aguentando apenas até a hora em que o suposto inimigo pare de falar. Aí, sem levar em conta, minimamente, o que foi dito, repetem as suas verdades em frases estereotipadas.
Militantes me recordam as crianças que, nas cidades históricas brasileiras, se oferecem para mostrar igrejas, monumentos, museus, etc. “Esta igreja foi erguida em 1759 por X, por ordem do Rei de Portugal…etc”. Se um turista pergunta: “mas quem pagou a construção?” ou uma outra pergunta não prevista no script, a criança olha feio para o incômodo indivíduo e recomeça: “Esta igreja foi erguida….”. Militante é o que aprendeu um vade mecum e, com ele, aprendeu também a odiar quem não entra nos moldes discursivos e práticos do circulo ao qual ele, o militante, pertence.
Ficamos assim: tenho amigos de esquerda e de direita. Eles que me perdoem, mas recuso o procedimento de suas greis. Odeio ler análises de livros, filmes, partidos, religiões, etc. quando logo nas primeiras frases e insultos percebo os dedos da velhinha hegeliana que aponta para subjetividades, quando questões factuais e objetivas (os ovos estão podres?) surgem. A má fé dá-me engulhos. Um pouco de polidez no trato seria relevante, neste Brasil atrasado em todos os planos, sobretudo nos ideológicos.
Um abraço!
Roberto Romano
In: http://oapolitico.blogspot.com/2007/03/alguns-amigos-colegas-inimigos-e_1714.html
Caro(a)s,
Isso só serviu pra concluir claramente o que ainda tinhamos duvidas….
- Morte aos “coletivos”.
Abçs,
Prezado Paulo Araújo
Mais que excelente contribuição ao debate. Entretanto, gostaria de fazer um pequeno comentário.
Quando falas que
“Vejo o mesmo o anti-semitismo de sempre, embora revestido de retórica anti-sionista. A “opressão” é tão somente um pretexto para dar livre vazão ao velho conhecido anti-semitismo”
não posso concordar. Acusar Israel neste caso não significa, necessariamente, esposar o anti-semitismo. É evidente que os atuais fatos fornecem uma casca de legitimidade a um anti-semitismo latente, o qual já apontastes, mas nem todos os críticos, entre os quais me incluo, são anti-semitas.
Propor o contrário, e não quero induzir ninguém a pensar que acho que fizestes isto, é interditar o debate na medida em que a crítica aos atos do Estado israelense passam a ser percebidas como uma crítica ao judaísmo.
De resto creio que descontruístes o discurso do AFB com maestria e prestastes um excelente serviço a blogsfera em geral e ao Apostos em particular.
Caro Jorge Maia
Você tem razão em reclamar da minha generalização. Seria tolice eu defender o contrário. Nenhum Estado ou regime de governo está imune a críticas. Mesmo em Israel há judeus radicalmente contrários à atual política de combate ao terrorismo. Em Israel vigora o Estado de Direito com o seu poder judiciário guardião da Constituição. Em Israel os cidadãos (judeus e árabes) estão protegidos e obrigados, como em qualquer outra democracia, pela Constituição.
Minha generalização foi dirigida principalmente à massiva propaganda ocidental de caráter anti-semita, franco ou dissimulado, promovida pelos meios de comunicação e/ou instituições e organismos internacionais influentes na formação da opinião pública. Poderia enumerar e citar as ocorrências, mas não é o caso aqui e neste momento.
Explicito a minha crítica recorrendo mais uma vez a E. Auerbach e ao seu comentário sobre a técnica de propaganda nazista. Trata-se da “técnica do holofote”, que consiste em iluminar apenas uma das cenas de um complexo desenrolar de acontecimentos para convencer que o que foco ilumina é toda a verdade dos fatos.
A técnica do holofote “consiste em iluminar excessivamente uma pequena parte de um grande e complexo contexto, deixando na escuridão todo o restante que puder explicar ou ordenar aquela parte, e que talvez serviria como contrapeso daquilo que é salientado; de tal forma diz-se aparentemente a verdade, pois que o dito é indiscutível, mas tudo não deixa de ser falsificado, pois que, da verdade faz parte toda a verdade, assim como a correta ligação das suas partes. O público sempre volta a cair nestes truques, sobretudo em tempos de inquietação, e todos conhecemos bastantes exemplos disto, do nosso passado mais imediato. Contudo, o truque é, na maior parte dos casos, fácil de ser descoberto; mas falta ao povo ou ao público, em tempos de tensão, a vontade séria de fazê-lo; quando uma forma de vida ou um grupo humano cumpriram o seu tempo ou perderam prestígio e tolerância, toda injustiça que a propaganda comete contra eles é recebida, apesar de se ter uma semiconsciência do seu caráter de injustiça, com alegria sádica”. (Mimesis, a representação da realidade na literatura ocidental, São Paulo, Perspectiva, 1971)
No recente conflito entre Israel e Hamas, os holofotes manipulados não percorreram o palco inteiro.
Paulo, interessante resposta. Concordo contigo no essencial.
Jorge Maia